Exibindo as entranhas do poder

Compartilhe:

Se alguma coisa podemos aprender com a ascensão do UKIP no Reino Unido, com a candidatura de Donald Trump nos Estados Unidos e, dentre outros exemplos, com a emergência de uma direita desorganizada no Brasil, é que o surgimento de uma nova força política sempre acaba por expor a verdadeira natureza de um regime e, consequentemente, dos grupos que o controlam.

Clausewitz dizia que a política é a continuação da guerra por outros meios, e, em que pese ouvirmos com certa frequência que isso não passa de uma metáfora inteligente, acredito que o general prussiano nos ofereceu uma das descrições mais exatas da política moderna.

Nas democracias ocidentais, a política normalmente se reveste de um manto de civilidade que, apesar de estar brutalmente distante da realidade e talvez justamente por isso, serve apenas para encobrir sua verdadeira natureza e para impedir que as pessoas comuns e os outsiders vejam além das externalidades, frustrando-os de enxergar o que está por trás da aparência de normalidade com que os detentores do poder ocultam os meios, mais do que sórdidos, que utilizam para se manter no poder: o controle hegemônico, a mentira, a dissimulação, a trapaça, a manipulação, a pilhagem, a corrupção, o homicídio… a lista é infindável.

Essa realidade oculta é exposta quando surgem novas forças políticas porque, quando o são de fato novas, estas forças surgem sempre como expressão de um grupo de outsiders que jamais será capaz de chegar ao poder se aceitar os métodos “civilizados” daqueles que está a desafiar, e que, portanto, terá de expor publicamente a violência e a feiura escondidas por trás de todo o aparato de ocultação, revelando as condições concretas que corroem os próprios valores que o establishment dissimuladamente diz defender.

Assim, com a ascensão do UKIP, o povo britânico e europeu é exposto à arrogância centralizante da União Européia; com a candidatura de Trump, os americanos são confrontados com a corrupção inimaginável não apenas dos Clintons e dos Obamas, mas do establishment como um todo; e, com a emergência da direita brasileira, nosso povo começa a ter, pela primeira vez, um pequeno vislumbre da sórdida e intrincada estratégia que permitiu à esquerda estabelecer sua hegemonia cultural e, com isso, dominar as mentes até mesmo daqueles que nos dominam politica e estatutariamente: os membros do velho estamento burocrático.

Nenhum desses processos está concluído. O UKIP ainda precisa ver o Brexit tornar-se realidade; Donald Trump ainda precisa consolidar o seu poder e superar uma série de desafios; e a direita brasileira tem pela frente um universo de afazares, a começar pela sua organização interna e pela luta por seu direito de existir. Em todos estes casos, porém, o êxito só será possível mediante o reconhecimento de que os grupos que controlam o poder não são onipotentes nem anti-frágeis, que a maior força deles é também sua maior fraqueza, e que, como ensinam Bertrand De Jouvenel e Olavo de Carvalho, o poder pode mudar sua aparência mas jamais a sua realidade – em outras palavras, é necessário fazer da denúncia da natureza do poder de nossos inimigos a nossa maior arma, esmagando as aparências e tornando, exibindo as entranhas do poder e tornando a realidade visível a todos.

* * *

Guillaume Liegey, o estrategista de Emmanuel Macron, chegou hoje ao Brasil prometendo à nossa classe política a fórmula secreta para derrotar o “populismo”, uma palavra-gatilho que cada vez mais tem sido esvaziada de seu significado e utilizada para despertar reações contra o deputado Jair Bolsonaro, que, ironicamente, dentre todos os presidenciáveis, é o menos afeito à demagogia, aos jogos de cena e ao bom-mocismo do marketing político.

Liegey, que também trabalhou nas campanhas de Obama e de uma porção de outros políticos de esquerda apresentados ao público sob um invólucro de novidade, se reunirá com Luciano Huck, Henrique Meirelles, João Dória e Marina Silva. Ele também se encontrará com representantes de lideranças nacionais fabricadas pelo establishment, como os movimentos “Agora!” e “Acredito”, e tem a pretensão de voltar para a França com um contrato milionário e com a missão de repetir por aqui a façanha de transformar algum figurão do establishment em um outsider biônico; em um candidato capaz de prometer mudança e novidade à população ao mesmo tempo que garante continuidade às classes dominantes.

Os truques de Liegey e de seus parceiros, Vincent Pons e Arthur Muller, não são grande coisa, mas, se surtirem efeito, certamente teremos por aqui o aprofundamento da crise atual e uma situação ainda pior que a da França, onde apenas 12% dos franceses estão satisfeitos com o governo, um número significativamente menor do que os obtidos por Donald Trump nos EUA (em torno de 43%), motivo pelo qual a aprovação de Macron é sempre omitido pela nossa mídia — a mesma mídia que quer nos vender o presidente francês como o modelo a ser seguido e que, frequentemente, alardeia a aprovação do presidente americano como sinal de fracasso e rejeição.

Seja como for, de uma coisa podemos estar certos: como tenho dito desde o início do ano, o Brasil será o próximo palco de um embate entre forças soberanistas e forças globalistas; de uma queda de braço entre o povo e os grupos que o dominam; entre o homem comum e os donos do poder.

Fonte: Midiasemmascara

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *